Os resíduos gerados no tratamento de água são denominados lodo de ETA (Estação de Tratamento de Água) ou LETA. Em estações convencionais, 60 a 95% dos resíduos são retidos nos decantadores de água (ou flotadores) e a segunda parcela significativa encontra-se nos filtros rápidos. Em geral, o lodo é composto por água e sólidos suspensos originalmente contidos na água bruta, acrescidos de produtos resultantes dos reagentes aplicados durante o processo de tratamento.
Os constituintes desse resíduo podem incluir bactérias patogênicas e vírus, cistos de Giardia e oocistos de Cryptosporidium, partículas que geram turbidez, subprodutos de desinfecção, matéria orgânica natural, carbono orgânico total e assimilativo, compostos causadores de sabor e odor, compostos orgânicos sintéticos, manganês e ferro, arsênio ou outros componentes tóxicos, materiais radioativos e sais dissolvidos.
Entre os fatores que interferem nas características e na quantidade de resíduos gerados estão a qualidade da água bruta, o tipo e a dosagem de produtos químicos, o mecanismo de coagulação praticado, a eficiência da coagulação/floculação e o tipo de decantadores, aliados ao modo de operação e ao descarte do lodo. Em geral, de 0,2 a 5,0% do volume da água bruta que entra em uma estação de tratamento de água convencional torna-se lodo – a depender da técnica utilizada para sua remoção.
Para destinação adequada do lodo de ETA, faz-se necessário o seu tratamento, tendo em vista principalmente a retirada de água do resíduo a um nível que se permita facilitar o seu manuseio e reduzir os custos de transporte. Essa remoção é feita, usualmente, através das etapas de condicionamento, adensamento e desaguamento. A primeira consiste na utilização de polímeros catiônicos, aniônicos ou não aniônicos como condicionantes para que os sólidos coagulem e liberem a água adsorvida. Já o adensamento é uma técnica de separação sólido-líquido que pode ser realizada por gravidade, flotação ou mecanicamente, resultando em lodo com teor de sólidos totais por volta de 3%. Já o desaguamento produz lodo com cerca de 20% de sólidos e pode ser feito em lagoa, leito de secagem, centrífuga, esteira e filtros prensa.
O lançamento de lodo de ETA in natura em corpos hídricos promove impactos negativos que vão desde aspectos estéticos com incremento da cor e da turbidez da água até o assoreamento dos corpos hídricos. Além disso, pode resultar em diminuição da atividade fotossintética da flora aquática, devido à baixa penetração da luz, e da concentração de oxigênio dissolvido. As concentrações de ferro e alumínio podem se elevar, pois seus sais são comumente utilizados como coagulantes nas estações de tratamento.
Para melhorar a problemática relacionada ao lodo de ETA, existem alternativas como a recuperação de sulfato de alumínio, o encaminhamento para ETE ou aterro sanitário, a remoção de fósforo em efluente de ETE, a recuperação de áreas degradadas, a incorporação em material da construção civil – principalmente cerâmica vermelha, o revestimento rodoviário e a redução de produção de lodo.
Uma pesquisa em escala laboratorial avaliou a substituição de solo de wetland por lodo de ETA desidratado, visando à remoção de fósforo. Os resultados apontaram para um bioadsorvente promissor, o qual removeu o nutriente quatro vezes mais que o mesmo solo utilizado em wetland em operação na região do estudo. O lodo de ETA também vem sendo largamente estudado quanto a sua utilização na fabricação de peças cerâmicas, como substituto parcial da argila, além do uso em peças de concreto e em substituição ao agregado graúdo. Isso mostra que, com gestão adequada, o lodo pode promover impactos positivos, de modo a poupar recursos hídricos, solo, brita e fertilizantes.
As informações acima foram extraídas da dissertação de mestrado Qualidade da água da sub-bacia do rio Poxim a montante e a jusante da captação da estação de tratamento de água, defendida por Taynar Mota de Jesus, no Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil, da Universidade Federal de Sergipe, sob orientação da professora Denise Conceição de Gois Santos Michelan.