As mudanças climáticas levantam um debate global, na medida em que envolvem os diversos países em negociações que colocam em discussão os limites do crescimento e o modo como estes definem o desenvolvimento.
A Amazônia também sofre as consequências das mudanças climáticas. A região vem recebendo nas últimas décadas uma pressão de origem antrópica, tanto vindas do desmatamento e incêndios florestais, quanto por pressões resultantes do próprio fenômeno do aquecimento global.
É necessário enfatizar como as mudanças climáticas não atingem a todos da mesma maneira. Sabe-se que populações localizadas em climas tropicais e de maior vulnerabilidade socioeconômica serão as mais atingidas pelos danos climáticos, com situações de secas e inundações, assim como risco de insegurança alimentar. A justiça ambiental está relacionada com a noção de que grupos sociais distintos possuem diferentes responsabilidades sobre o consumo de recursos naturais, assim como são desiguais os efeitos sentidos pelas alterações ambientais.
Os efeitos das mudanças climáticas intensificam os processos de desigualdade de determinados grupos. Eventos climáticos extremos e desastres socioambientais vêm demonstrando um padrão no que se refere ao perfil das populações que sofrem suas consequências. Uma pesquisa sobre o perfil dos atingidos do rompimento da barragem da Vale S.A. na cidade de Brumadinho/MG revela que a população afetada pelos quilômetros de rejeitos são de forma mais presente populações não-brancas (63,8%) e de baixa renda.
A experiência do furacão Katrina, em 2005, nos Estados Unidos, é outro exemplo. A maioria dos afetados pelo desastre foram pessoas negras e de classe baixa em bairros periféricos, onde os diques de proteção estavam em péssimas condições, algo que já era de conhecimento das autoridades locais. O número de refugiados climáticos, por exemplo, tem crescido como um problema global. Em 2014, calcula-se que houve 19,3 milhões de refugiados climáticos no mundo.
O que se percebe é que mudança do clima e seus efeitos ainda não estão presentes no debate público e, inclusive, é uma temática de pouca comoção e aderência social. Por ser um domínio de estudos das “ciências duras”, o modo como as comunidades se relacionam com esses fenômenos raramente é narrado nas pesquisas. As políticas públicas para as mudanças do clima, por exemplo, não se aprofundam ou pontuam porque determinadas populações seriam vulneráveis ou não. E ainda, as estratégias formuladas não consultam amplamente as comunidades interessadas em seus processos de construção de diretrizes e ações.
A temática, portanto, desafia o campo das ciências sociais a encontrar elaborações que possam trazer respostas sobre a atualização e urgência dos fenômenos. Nesse sentido, é interessante atentar para os processos de precarização, assim como para as possibilidades de resistências e enfrentamento que são configuradas a partir de eventos críticos ou processos de vulnerabilidade em contextos cotidianos. Analisar esses movimentos em meio a tessitura da vida, torna-se uma tarefa importante para identificar as possibilidades de existência.
As informações acima foram extraídas da dissertação de mestrado "A natureza se move e a gente se move junto": práticas de adaptação às mudanças climáticas em comunidades ribeirinhas da Amazônia, defendida por Júlia Menin, no Programa de Pós-Graduação em Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sob orientação da professora Lorena Cândido Fleury.