Ao longo da história, as características do meio natural sempre foram levadas em conta quando se trata da arquitetura das construções. Em certos climas há menos rigores, o que permite mais liberdade e variedades construtivas e compositivas, com baixas restrições derivadas do clima a repercutirem decisivamente na expressão formal arquitetônica. Já em lugares com amplitudes térmicas muito altas ou com temperaturas extremas o clima torna-se decisivo nas escolhas construtivas.
Nesse sentido, a bioclimatologia é a ciência que estuda as relações entre os seres vivos e o clima. Desse modo, a arquitetura bioclimática utiliza os elementos climáticos e os recursos regionais, tecnológicos e culturais a favor das soluções para o condicionamento ambiental natural. Seus princípios aplicados podem garantir o conforto ambiental físico dos usuários, sobretudo em seus aspectos térmico e lumínico, por meio de estratégias passivas, gerando também economia de recursos e energia.
Aliar os atuais avanços científicos e tecnológicos às soluções regionais, de tradição vernacular, também pode constituir-se em um meio de produção de arquitetura de menor impacto ambiental e de maior expressão cultural, evitando-se, por conseguinte, a disseminação de qualquer repertório pronto de soluções sustentáveis, o que, evidentemente, constitui uma contradição em termos, posto que, para ser sustentável, a construção, bem como qualquer prática, precisa levar em conta em alto grau o contexto de inserção.
É possível dizer que o conforto ambiental, consequência da adequação da arquitetura ao clima e ao lugar, favorece a apropriação espacial, o sentimento de pertencimento, a corresponsabilidade pela manutenção dos espaços coletivos e, ainda, amplia as possibilidades de proximidade, troca e compartilhamento com outros indivíduos, usuários dos espaços públicos.
A sustentabilidade convoca todos os segmentos a pensar e criar formas de intervenção menos danosas, ressaltando a utilização racional de energia e outros recursos. É um enorme desafio para a atual geração de arquitetos aceitar a tarefa de contribuir para a diminuição da dependência de fontes energéticas poluidoras, considerando-se todo o impacto socioambiental envolvido com o cenário da energia.
Hoje, não é mais aceitável que o elevado gasto de energia se justifique por projetos arquitetônicos plástica e tecnologicamente impressionantes, porém ruins do ponto de vista do desempenho ambiental, ainda que se trabalhasse com um cenário ideal, de energias plenamente renováveis.
Assim, é importante a disseminação do conhecimento sobre o bioclimatismo, pois seus princípios podem ser aplicados em todas as linguagens estilísticas conhecidas. Esse entendimento, que reflete diretamente na qualidade ambiental, precisa estar na ordem do dia de arquitetos, urbanistas e demais intervenientes do espaço e atores do setor da construção civil. O bioclimatismo e o componente energético devem fazer parte o mais cedo possível da concepção de arquitetura.
As informações acima foram extraídas da dissertação de mestrado SINGULAR E PLURAL: estudos de conforto ambiental à luz de arquitetura bioclimática, eficiência energética e experiência espacial do usuário, defendida por Lívia Ferreira de França, no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Urbano da Universidade Federal de Pernambuco, sob orientação do professor Ruskin Marinho de Freitas.